metáfora
algures na noite. entre o chá e o devaneio percorro as linhas desatentas deste livro, de um amor que não chegou a ser, de uma angústia que sempre foi. procuro avidamente essas linhas, que saltei, transpus sem pejo, e demoro-me agora a contemplá-las. não as leio, não tenho a coragem para descobrir, enfim, o que poderia ter sido mas não foi. antes assim, o luto nunca consumado nesta história incompleta. e alguém disse que escrevemos metáforas – a gaivota é um símbolo – e não há maior e mais vil metáfora que a de sermos nós mesmos. a acção mais não é que a metáfora do medo, do desejo ou da pulsão. não concordam? a vossa opinião confirma-o – actores de vós mesmos, são a imagem dessa alma que vos habita e se expressa em gestos e palavras. o choro de uma criança, na imensidão da noite e do seu sonho – volto para o tabuleiro de xadrez, pois que os livros se fecham diante de mim.

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