cidade
Sim – disseste tu, enquanto remexias a terra húmida entre os dedos – podes sempre saltar, ninguém se espantará. E na nudez do instante senti que realmente não te importavas. Um remoinho de motivações perdeu-se nas palavras que esqueci nessa terra. E não saltei. Regressei a casa, queimei as lembranças no chá que entornei e o vento que trespassava a casa rasgou imagens desenhadas com ilusão na certeza da perda. Deitei-me, o chá não me acalmou mas adormeci depressa, para fugir à verdade que sonhei mentira. No dia seguinte eras apenas uma impressão debaixo das unhas. Nunca mais andei descalça na terra molhada, nunca mais regressei ao poço. Alguns meses depois deixaste de respirar e por fim, nunca exististe. E se alguém hoje me perguntar, o teu nome é o de alguém que me parece que conheço. Mas o caminho do poço esqueci e a terra molhada é para os cães. Aqui na cidade estou segura.
