quinta-feira, maio 18, 2006

cidade

Sim – disseste tu, enquanto remexias a terra húmida entre os dedos – podes sempre saltar, ninguém se espantará. E na nudez do instante senti que realmente não te importavas. Um remoinho de motivações perdeu-se nas palavras que esqueci nessa terra. E não saltei. Regressei a casa, queimei as lembranças no chá que entornei e o vento que trespassava a casa rasgou imagens desenhadas com ilusão na certeza da perda. Deitei-me, o chá não me acalmou mas adormeci depressa, para fugir à verdade que sonhei mentira. No dia seguinte eras apenas uma impressão debaixo das unhas. Nunca mais andei descalça na terra molhada, nunca mais regressei ao poço. Alguns meses depois deixaste de respirar e por fim, nunca exististe. E se alguém hoje me perguntar, o teu nome é o de alguém que me parece que conheço. Mas o caminho do poço esqueci e a terra molhada é para os cães. Aqui na cidade estou segura.

terça-feira, maio 09, 2006

Arco-Íris

Quem nos fez ter medo de tentar? Enquanto a chuva, lá fora, molha os pés dos inquietos. E há quem não consiga esquecer o arco-íris no fundo dos teus olhos. Serei sempre o que não consegui ser e essa mágoa escondeu-se no fim da nossa mentira. As palavras pululam no chão que me separa do teu abismo. E acredita que és o cliché do poço sem fundo, onde me afundo sem cuidados. A tua mão já não me segura e o teu Medo arrasta-me para o fundo. E seremos sempre isto – uma sombra e meio ideal.

segunda-feira, maio 01, 2006

unha

Partiu uma unha a contar as notas – deviam ser muitas – diria ele, se aqui estivesse. Era vermelha, da cor do baton que insistia em guardar na mala, partido. Dizia que recordava as noites, os colarinhos vulgares e os cigarros apagados. Era, enfim, a prova de uma memória verdadeira. (Um sorriso enrugado perdeu-se debaixo da máscara). Mas as notas afinal eram poucas e a unha – essa – talvez quem sabe, já estivesse partida, de uma outra vida, que se perdeu no início desta história.