terça-feira, julho 04, 2006

morrendo

E um dia acordas. Estás nu num canto do armário vazio. Cá fora todas as peças de roupa que não vestiste, todas as gravatas que deste a alguém, todos os sapatos de sola por gastar. Os “ses” desfilam diante de ti, um por um, como o filme que se desenrola no cenário da mente de um futuro morto. E queres acordar, queres deixar de ser a curta metragem, queres enredo e personagens, um cenário para a tua nudez, uma banda sonora que te acorde os fantasmas e os torne vivos, de carne e osso, como a tua vida, que agora se esvai, pelos dedos do tempo, qual areia solta.
Arrependimento fugaz para décadas de ar respirado, sem vida, sem esforço. Não sofreste. Não. Mas não acreditas em vidas futuras ou paraíso. Ninguém te penalizaria – não vais pagar mais pela saída naquela porta preta da badalada da meia-noite. O mundo acaba contigo. E não descobriste porque vives. Nem sequer tentaste acreditar, assimilar em ti a semântica da vida dos outros. Estás oco, desprovido de verdades, despejado de mentiras. Querias criticar alguém, querias uma ideia para apoiar, um desejo para satisfazer. Nada. Definhas ao compasso da decomposição orgânica dos corpos. Quando te encontrarem não serás mais que um monte de roupas velhas, no sótão de uma alguma casa que ninguém soube existir. Não serás deitado fora, não serás criticado ou benzido. Viveste a tua vida da maneira mais simples. Morrendo.